segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O MUNDO É UM BRINQUEDO

Por Romeu Duarte





A Sérgio Pinheiro

O dia para ele começa sempre cedo e tem cheiro de café forte com tapioca quentinha. Banho tomado, cabelo estilo Jovem Guarda, nu da cintura para cima e com a camisa no ombro, já procura ansioso o violão, companheiro fiel de tantas jornadas. A natureza é sua musa inspiradora: a cantiga dos pássaros, o farfalhar das copas das árvores, a luz solar invadindo o quarto, alguma chuva (quando há), mais tarde a lua e seus mistérios. Os bichos também lhe dizem respeito: o vira-lata com o focinho entre as patas, o gato ardiloso e altivo, a formiguinha em sua faina vertical na parede. No quintal, seu frutífero reino, sob o amigo sapotizeiro, inaugura mais uma folhinha do calendário com umas boas lapadas matinais e a bordo de um sincopado samba do Noel. 

O jornal sobre a mesinha de madeira não traz as novas que ele quer ler. Em vez dos atos de vandalismo, do troca-troca de partidos pelos políticos, das espionagens e guerras pela Terra ele gostaria de saber quando é que vai brotar o primeiro maturi do cajueiro da rua, se a balconista da farmácia defronte vai lhe retribuir o olhar pidão, por onde anda o galo-de-campina que se lhe escapuliu da gaiola. Nem é moço nem é velho e o Jacarecanga é seu planeta. Pastor do tempo e da paisagem, trabalhar não é seu forte. Seu natural é curtir o doce passar das horas, a divertida adivinhação dos ruídos lá fora, o aceno do sol em sua viagem de luz e sombra pelo céu, ofício de esteta do far niente. Depois da merenda das dez, mais lapadas e um bolero do Nelson para rebater.

Os trocados que a mana lhe deixara sob o açucareiro garantiam-lhe com folga a pagodeira no bar da esquina. Pobrezinha, funcionária pública graduada, tanto trabalho e responsabilidade que nunca arrumou marido. Melhor assim, de outra forma não seria ele o seu bem cuidado bibelô. No balcão da bodega, em meio às cangibrinas, os bordões do seu violão alternavam-se às novidades, ou melhor, às maledicências: o que levou chifre e perdoou a mulher, a que envenenou a prole, o menino estudioso que acabou na pedra. “Nunca dei um dia de serviço a ninguém, minha ocupação é com o girar do mundo, esse brinquedo”. O almoço de panelada com arroz e pirão forrara-lhe o bucho e ora lhe anunciava a sesta, mansa como uma canção de amor do Chico.

A tarde caindo pelas tabelas presenciou o seu acordar. Gênio barrigudo e incompreendido, merendava uma tora de bolo com guaraná lembrando-se dos carinhos e conselhos da mãe, já há muito ida. As recordações do pai, entretanto, não eram boas, visto tratar-se de figura do mesmo naipe seu e, como se sabe, dois galos no galinheiro é confusão na certa. “Quem sai aos seus não degenera”, ria-se de si para consigo, engasgando-se com as migalhas do confeito. Mais negócio seria voltar ao botequim para abastecer-se das notícias vespertinas e tomar etílicas providências. O segundo tempo foi melhor que o primeiro: um coleguinha trouxera um pato à cabidela, devorado pelos presentes entre goladas da moça branca e um choro do Pixinguinha.

Noitinha, na rede do alpendre, já se preparando para a prorrogação e a disputa por pênaltis, ele agenda as tarefas de amanhã: fazer a fezinha no bicheiro, assistir ao jogo do Ceará, dar um pulo na farmácia para espiar a tal balconista, ensaiar duas músicas novas do Rei Roberto, arrumar algum com a irmã para as necessidades, fazer a ronda do boteco, essas coisas fundamentais do cotidiano. As primeiras estrelas despertavam-lhe uma curiosidade filosófica: “serei eu uma eterna criança a brincar de viver neste mundão de meu Deus?”. Tanta vontade de saber, tanta pergunta sem resposta. O violão obediente ressoa aos seus arpejos, modinha singela e boa de cantar: “Quem não trabalha não fica doido, só quem trabalha é que fica doido...”.
Fonte: jornal O POVO, 14 de outubro 2013.


quinta-feira, 10 de outubro de 2013

BIG BROTHER BLACK BLOCS

Por João Bravin

Companheiros e companheiras de luta,

Fiz este post para termos um outro olhar para este tipo de ação dos Black Blocs que vem acontecendo desde as manifestações de junho. A ideologia Black Bloc se baseia no questionamento da "ordem vigente". Eles se manifestam contra o capitalismo e à globalização. Suas ações promovem o dano material a fachadas de empresas multinacionais e vidraças de bancos. Como agem e para quem servem os Braziliam Black Blocs:

1º - São poucos em torno de 100 a 200 pessoas nos atos.
2º - Perfil jovens classe média, estudantes e profissionais liberais.
3º - Após as manifestações junto com o MPL sobre a redução das passagens, passaram a utilizar outras lutas dos movimentos sociais para agirem violentamente.
4º - Num país que gera emprego, tem aumento real de salários nos últimos 10 anos, diminui a pobreza absoluta, leva mais de 1 milhão de jovens para universidade pelo PROUNI, a quem interessa o caos social?
5º - A imprensa noticia qualquer ato destes trolhas como se fosse a 3ª guerra mundial.
6º - Ano que vem tem copa do mundo, eleição, Eduardo e Marina e Aécio mais perdido que cego em tiroteio e Serra só esperando pra sentar na cadeira de candidato se nas pesquisas Aécio cair mais ainda.
7º - O que a direita precisa já que não tem projeto de nação?

 RESPOSTA: BIG BROTHER BLACK BLOCS



terça-feira, 8 de outubro de 2013

MARINA E EDUARDO, OPOSTOS QUE SE ATRAEM

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/10/1353265-alianca-de-campos-e-marina-ameaca-palanques-estaduais.shtml

OUTUBROS DE FRANCISCO

Por Romeu Duarte



Arreamento da bandeira de São Francisco marcando o
encerramento das atividades dos festejos do
santo da paz e da ecologia
A Caio Napoleão
Há muitas luas e sóis, num outubro abrasador como este, cheguei esbaforido do Colégio Cearense declarando como feriado nacional o período de meio-dia até a meia-noite daquela sexta-feira. Já me livrando da farda e dos livros e imaginando a farra de estar perdido no espaço do túnel do tempo, ouvi a voz de mamãe no corredor: “Para adiantar o serviço, vá logo se assear. Quando terminar, vista a veste que está em cima da sua cama”. Pensando ter ganho a tão ansiada calça Topeka modelo Saint-Tropez, qual não foi a minha decepção ao divisar sobre o leito uma roupa tosca, comprida e marrom, na verdade um hábito franciscano. “Mãe, que diabo é isso?”. Minha genitora, mulher severa, retrucou: “Respeite São Francisco, cabra safado, que nós vamos a Canindé!”.
E agora? Por motivo da cura de uma moléstia que eu, menino destituído de anti-corpos, contraíra, mamãe havia feito uma promessa ao poverello de Assis a ser paga por mim na Basílica da Cidade da Fé. “Arre ema, mamãe, logo hoje que eu tenho tanto dever pra fazer...”, negociei. “É muito bonito pra tua cara, né, sem-vergonha? Quando estava coberto de ferida, nem se mexia no fundo da rede. Agora que está aí, todo lampeiro, nem se lembra de agradecer a quem lhe curou, né, ingrato?”. “Mas é injusto, a promessa é da senhora...”, argumentei, em vão. “Quero nem saber, marche pro banheiro e avie. Seu Tio Eduardo vai passar aqui já, já. Se você não estiver pronto em cinco minutos,,,”. Tomei o banho mais revoltado do mundo, minha raiva mordendo o sabonete.
Asseio tomado, traje vestido, sandálias calçadas, lá fui eu, São Francisco dos pobres, com minha mãe e meu tio, cumprir meu mais que aborrecido calvário. Na saída, a fina zombaria dos meninos vizinhos: “Vai, feridento!”, “Reza uma Ave-Maria por nós, leproso!”, “Fica por lá mesmo, Zé-curuba!” e outras jóias da molecagem da Base Aérea de então. “Quando chegar lá, faça uma oração para cair a língua desse magote de fidumaégua...”, recomendou meu tio, ao volante de sua Rural Willys 1958 verde-e-branco. Rodando pela BR-020, o carro sem ar condicionado, o vento quente e seco na cara, os romeiros caminhando mansos pela beira da estrada. “Devia dar graças a Deus por ir de carro...”, disse mamãe, seus olhos verdes mirando a paisagem cinza de Caridade.
Canindé era uma nuvem de poeira e calor, um formigueiro humano da cor do chão barrento, a multidão de devotos se acotovelando nas procissões, a mulher com uma pedra na cabeça, o menino sem olhos, o penitente entoando um bendito, os ex-votos na Matriz, a catinga de urina, suor e excremento no ar, vamos cantando, irmãos, cheio de amor, cheio de amor, eu sem entender direito aquilo, a cabeça rodando, o planeta girando, as chagas trazes do Salvador, o povo se espremendo em cânticos, Senhor fazei-me um instrumento de vossa paz, “Mamãe, tô com sede, quero um Blimp-Limão”, “Tu vai levar é uma mãozada nos beiços, segura no andor, peste, e reza”, onde houver ódio que eu leve o amor, “Ai, o de baixo é meu, dona”...
Tudo isso me veio à mente agora, ao deparar com toda essa gente a pé, na Bezerra de Menezes, a caminho da Terra de Francisco no Ceará. Vão contritos, expiando culpas e pecados nas muitas bolhas dos doloridos pés. O calor inclemente não lhes diminui a coragem, feita de crença inabalável. Quem sou eu para julgar o sacrifício que se lhes impõem? Seus passos são contas de um rosário debulhado em penoso silêncio. Na volta de minha viagem, tarde da noite, lembro que vim debaixo de carão e beliscão por ser pivete malcriado e herege, candidato a interno do Santo Antônio do Buraco de Maracanaú para criar marra. Com o doce-amargo dessas recordações, eu, agnóstico, desejo boa sorte a esses peregrinos, em sua busca sofrida de remissão e felicidade.
Fonte: jornal O POVO, 7 de outubro de 2013.



segunda-feira, 7 de outubro de 2013

TODOS CONTRA DILMA


 Por Emir Sader





O fenômeno tem se repetido – na Bolívia, na Argentina, no Equador, no Brasil. Setores que saem dos governos – ou que sempre tinham se oposto – supostamente pela esquerda, percorrem uma trajetória que os leva a se situarem como oposições de direita.

Evo Morales, Rafael Correa, os Kirchner, Lula e Dilma – teriam “traído”. E seriam piores que outros contendores, porque seguiriam fingindo que defendem as mesmas posições que os projetaram como grandes líderes nacionais. Por isso tem que ser frontalmente combatidos, derrotados, destruídos, sem o que os processos políticos seguiriam retrocedendo e não poderia avançar.

Foi assim que setores que eram parte integrante do governo de Evo Morales declararam que ele é o inimigo fundamental a combater, porque teria “traído” o movimento indígena. Daí a proposta de uma frente nacional contra ele, que incorporaria a todos os setores opositores, não importa quão de direita sejam.
Por Emir
A mesma coisa com Rafael Correa. Teria “traído” a defesa da natureza e se passado a um modelo extrativista, tornando-se o inimigo fundamental a combater. Daí que setores que se reivindicam porta-vozes dos interesses dos movimentos indignas e ecologistas, se aliam expressamente à direita, para combater a Correa.

Na Argentina, os Kirchner teriam “traído” o peronismo, daí setores que faziam uma critica de esquerda ao governo – expressados, por exemplo, no peronista Pino Solanas – se aliam a setores de direita – como Elisa Carrió, entre outros -, para combater ao governo de Cristina Kirchner.

Poderíamos seguir com a Venezuela, com o Uruguai, porque o fenômeno se repete. Para poder operar essa transição de uma oposição de esquerda a uma de direita, é preciso demonizar os lideres desses processos, que seriam, piores do que a direita, daí a liberação para alianças com esses setores contra os governos.

No Brasil o fenômeno se deu, inicialmente, com o PSol e Heloísa Helena, que abertamente fizeram aliança com toda a oposição contra o governo Lula. Com a Globo, com os tucanos, com todos os candidatos opositores, na ação desenfreada e desesperada para tentar impedir a reeleição do Lula.

Abandonaram as críticas de esquerda – sobre o modelo econômico e outros aspectos do governo – para se somarem à ofensiva do “mensalão”, sem diferenciar-se do tom da campanha da direita.

O fenômeno teve continuidade com a Marina, que repetiu de forma mecânica a trajetória da Heloísa Helena na volúpia contra o governo Lula e a Dilma, quatro anos mais tarde. O destempero faz parte do processo de diabolização, que se caracteriza sempre, também, pela ausência de qualquer tipo de critica à direita – à mídia monopolista, ao sistema bancário, aos tucanos, aos EUA.

A relação desses setores com a direita tradicional é explicita: a essa ausência de criticas à direita corresponde uma promoção explícita dos candidatos que se dispõem a esse papel: Heloísa Helena, Marina, agora Eduardo Campos.
Todos contra o Evo, todos contra o Rafael Correa, todos contra a Cristina, e assim por diante. Aqui, agora, todos contra a Dilma.

Não há nenhuma duvida que o campo opositor está composto pelas candidaturas do Aecio, do Eduardo Campos, ao que se soma agora a Marina. As reuniões de Eduardo Campos com Aécio, a entrada do Bornhausen, do Heráclito Fortes, entre outros, para o PSB e o discurso “anti-chavista” da Marina, completam o quadro. Vale tudo para tentar impedir que o PT siga apropriando-se do Estado brasileiro para seus fins particulares, impedindo que o Brasil se desenvolva livremente.

Nenhuma palavra sobre o tipo de modelo econômico e social que desenvolveria caso ganhassem. Nenhuma palavra sobre o tipo de inserção internacional do Brasil. Nada sobre o papel do Estado. Silêncio sobre tudo o que é essencial, porque do que se trata é de tentar derrotar a Dilma.

Na verdade hoje a direita – seus segmentos empresariais, midiáticos, partidários – já se contentaria em conseguir que a Dilma não triunfasse no primeiro turno. O que vier depois disso, sera’ lucro.

Em todos os países, esses setores tem sido derrotados fragorosamente. Suas operações políticas não tem dado resultados, por falta de plataforma, de lideranças e de apoio popular.

Aqui também tem acontecido isso. O PSol foi ferido de morte por suas atitudes em 2006. Marina abandona a plataforma ecológica para assumir o anti-comunismo de hoje (o anti-chavismo) e se somar à política mais tradicional, sem sequer ter conseguido as assinaturas para registrar seu partido.

Termina no Todos contra a Dilma, cada um do seu jeito, mas com o objetivo comum. Esse cenário político tem Evo, Correa, Cristina, como teve a Lula e agora tem a Dilma, como referência central. Os outros são os outros, sem plataforma, sem lideranças e sem apoio popular.


Fonte: http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=1&post_id=1335

PED X TROCA-TROCA

Por Joaquim Cartaxo




Encerrou-se o prazo do troca-troca de partido político devido à legislação eleitoral que determina, 5 de outubro, como prazo máximo para os candidatos se filiarem a um partido e disputarem a eleição de 2014. Politicamente, a motivação do troca-troca decorre de divergências partidárias locais e busca de melhores condições nas disputas eleitorais.

Quanto aos partidos, no troca-troca interessa: aumentar a quantidade de deputados federais que representa maior quinhão do fundo partidário, do tempo de propaganda na TV e barganha na formação das alianças políticas.

A partir de agora, inicia-se a etapa de avaliação de perdas e ganhos das bancadas parlamentares, quem se comprometeu a mudar de partido e desistiu da aventura; de análise das possibilidades de arranjos, rearranjos e desarranjos dos palanques estaduais nas eleições do próximo ano.

Enquanto isso, o Partido dos Trabalhadores está em Processo de Eleição Direta (PED) de seus dirigentes. Em plenárias mobilizadas para debates, as chapas e os candidatos a presidente dos diretórios discutem com os filiados a conjuntura, o programa político do PT e as respectivas propostas de organização partidária. Nacionalmente, mais de 900 mil filiados ao partido estão aptos a votar no dia 10 de novembro e eleger as próximas direções municipais, estaduais e nacional.

O PT promoveu outra inovação na vida partidária brasileira: paridade de gênero e cotas para jovens, negros e índios na composição das chapas, diretórios e comissões executivas. Assim, as direções petistas serão mais femininas, jovens, negras e indígenas depois do PED. Com essa renovação, o PT reafirma ser um partido que aperfeiçoa sua democracia interna e se consolida como referencia partidária com a responsabilidade de aprofundar as formulações sobre o socialismo democrático, de produzir um ideário e cultura de esquerda, dialogando com a sociedade, em especial com a juventude.

Joaquim Cartaxo é arquiteto urbanista e vice-presidente do PT/CE

Fonte: jornal O POVO, 7 de outubro de 2013.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

O AQUÁRIO E A BIBLIOTECA


Por Romeu Duarte

Porte Velha - Praia de Iracema, Fortaleza, Ceará, Brasil.

A Tadeu Feitosa

“Há muito queria falar contigo, anciã. Como o novo dono do pedaço, filho dileto de Netuno, desejo conhecer cada palmo do meu território e os seus principais moradores. Ainda não estou pronto, é verdade, mas cresço a cada segundo. Logo, logo, minha espetacular fantasia irá embasbacar de dia e encandear à noite. Fortaleza, não perdes por esperar! Terei golfinhos nos meus olhos, tubarões em cada pulmão, baleias em minha barriga. Cintilarei minhas escamas metálicas às luzes do Sol e da Lua, descomunal criatura marinha das profundezas abissais que serei. Oh, Praia de Iracema, tu que deixaste de ser porto e reduto boêmio, experimenta agora esta nova vida que te dou. Nem o Dragão, de tantas labaredas antes, será mais grandioso que eu”.
“Tens a arrogância dos jovens, que se vêem o centro do mundo. Conheço bem o teu estado: já tive também meus dias de glória, quando o livro era algo que iluminava e embevecia. Minha arquitetura, hoje tão descuidada, já foi exemplo-mor do brutalismo alencarino. Nascida no século XIX, fui idealizada para ser a maior de minha estirpe no Ceará. Fui batizada com o nome de um interventor da era Vargas. Pois é, meu peixe, já fui importante. Hoje, sofro sem água, ar condicionado e internet, essa rede de intrigas que me amofina. Vazia, escura, poeirenta, à mercê do ácaro fatal, aqui resto eu, rejeitada por escritores e leitores, até por este Dragão, que me estende a cauda à força. Mas o que mais me dói é a ingratidão dos que se criaram aqui dentro e me deram as costas...”.
“Ai de ti, ultrapassada, não vês que não há mais lugar para os da tua raça neste planeta? Livro? O que manda agora é a imagem, o espanto das mil telas, a celeridade das notícias, o pulsar da existência nos megapixels, o homem-holograma. Tu aí, com tua carga inútil de alfarrábios-farofa, tuas relíquias sem futuro, quem quer saber de ti, quando as crianças não mais aprendem a redigir seus nomes escrevendo, mas pressionando um teclado? Além dos seres do mar e das águas dos oceanos, terei também cenários, dioramas, o cinema elevado à potência do absurdo. Tudo em mim será superlativo e pós-contemporâneo, num esforço de comunicação com estes novos humanos da Geração Z, meu estimado público, meus queridos nativos digitais”.
“Tua arrogância explica os problemas que a tua simples proposta já causou. Aliás, ela tem correspondência em tua forma, gigante e horrendo animal encalhado na beira da praia, que só serve de moldura à tua desnecessidade. Tens razão, a imagem é tudo: mal nasces, já estás a apodrecer. Anseias ser o futuro, só espero que não o do passado. Basta, porém, de arengas tolas, pois preocupa-me mais o meu porvir, incerto e sem planos. Se ninguém mais me procura, a culpa não é minha. Sou um simples objeto encravado em uma cidade hostil à cultura, uma instituição embolorada. A mente e a mão do homem são o que me salva ou condena. Depósito de livros, repartição, casa mal-assombrada, meu nome é vazio de idéias e sentires...”.
A noite cai no limite do Centro com o bairro praiano. As primeiras estrelas dão o ar da graça por entre as copas dos oitizeiros do bulevar. A Conceição da Prainha benze seus vizinhos brigões e zoadentos. A líquida esmeralda troca seu manto diurno para uma soirée. O conteúdo do prisma de concreto e vidro dorme um sono de morte. À beira-mar, o corre-corre de operários e máquinas, o levanta-e-escora dos tapumes, a obra que não pode parar. As duas pontes, testemunhas silentes, presenciam a azáfama, as ondas batendo em seus pilares carcomidos. O Poço da Draga, buraco sem fundo, quem irá resgatar? A mulher calada, o vento desalinhando o cabelo molhado, o vestido de malha enfiado no vão das pernas secas, o olhar no breu lá fora, será que ele volta?

Fonte: jornal O POVO - 30 de setembro de 2013.