quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

OPOSIÇÃO: PROCURA-SE


ArquivoPor Wanderley Guilherme dos Santos

Se depender da oposição o País não vai andar. A infantilidade de seus protestos explica o agônico socorro que está pedindo à descabelada desordem urbana. De seu próprio ventre, nada. Criticar a autoridade fiscal, por exemplo, por ter usado tributos e dotações dos leilões para fechar as contas equivale a desancar o quitandeiro porque equilibra o livro-caixa recebendo o que lhe devem. É curial que o governo troca tributação por serviços, administração e projetos. Lá uma vez ou outra parte dos impostos se transforma em subsídios diretos e indiretos ao consumo e às despesas dos grupos vulneráveis. Chama-se redistribuição de renda e vem ocorrendo há pouco mais de dez anos no Brasil. É isso que provoca espuma na garganta oposicionista e a faz perder o senso de ridículo.
 
Nenhuma oposição que se preze tenta condenar um governo por fazer uma parada técnica voltando de longa viagem. Aliás, nem mesmo se fosse para simples recuperação física, independente de considerações meteorológicas ou de segurança de vôo. Pois este foi um dos brados de guerra, sem eco, da semana oposicionista.  

Desdobrar desembolsos no tempo é uma espécie de versão macroeconômica da compra a crédito, o uso calculado da renda e do gasto futuros. A dívida das pessoas deve ser compatível com a proporção comprometida da renda esperada face ao dispêndio incompressível que virá a ter. Trata-se de uma questão de ser ou não leviano em relação à própria economia. E é preciso muita leviandade para que eventuais desmandos, ou desvairada presunção, conduzam à falência. Desde a redemocratização de 1945 foram necessárias décadas dos mais variados governos, inclusive ditatoriais, até que os livrescos sábios do PSDB conseguissem a proeza de quebrar a economia brasileira três vezes em não mais do que oito anos.

Quando as mesmas vozes do passado esgoelam-se em advertências sobre a dívida pública, bruta ou como proporção do produto interno, com que diabos de autoridade pensam estar falando? Não possuem nenhuma imaginação ou criatividade e o bolor das receitas sugeridas tem um só resultado, se aviadas: desemprego. Existe uma crônica morbidez no pensamento conservador que o faz recuar diante da saúde e saudar os sintomas patológicos de vida social. Talvez por isso aplauda a proliferação dos micróbios (pequenos grupos de desordeiros, em geral), sem se dar conta de que estes são a hiperbólica evidência do fracasso oposicionista, ele mesmo.


Mas a pantomima máxima revela-se na busca de recordes. Os furos pelos quais compete a grande imprensa foram transferidos das páginas de esportes e da previsão do tempo para as manchetes, mas com significados distintos.

Excepcionais desempenhos em natação, maratona e salto a distância refletem o aprimoramento físico da espécie, o apuro no treino e a perseverança nos treinos. Já os indicadores de temperatura nos explicam o bem estar ou seu contrário em condições de exacerbado calor ou frio. Por isso comparam números de hoje com os de ontem ou de há dez anos conforme o caso. Mas as manchetes das primeiras páginas são pândegas. Títulos chamativos advertem que aumentou a ameaça inflacionária enquanto o texto explica que houve uma variação para mais no quarto dígito depois da vírgula, algo que não acontecia há dezoito, vinte e três ou não sei lá quantas semanas. Ou seja, o furo jornalístico não quer dizer absolutamente nada.

Pelo andar da carruagem é de se esperar escândalos informando que o desemprego na tarde de quarta feira passada foi o maior já registrado em tardes de quartas-feiras de anos bissextos. Ao anunciá-los os apresentadores de noticiários televisivos farão cara de fralda de bebê, suja.

Enquanto o País muda a pele, subverte rotinas, enfrenta e experimenta uma realidade inédita – a liquidação da miséria extrema – e veloz reestruturação de seus contingentes sociais, o reduto oposicionista balbucia indignações esfarrapadas. E a crítica competente é fundamental para o desempenho de qualquer governo. Quanto a isso, estamos à míngua. A oposição brasileira é rústica como oposição, não está preparada para governar. 


Fonte: http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Oposicao-procura-se/4/30145
 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

DESAFIOS E OPORTUNIDADES





Fonte: Internet
Por Joaquim Cartaxo

Há processos socioespaciais e econômicos que o município não possui controle direto sobre os seus impactos. Exemplos: a urbanização, cuja intensidade gera demandas imensuráveis de moradia, mobilidade, saneamento, oportunidades de trabalho e renda; a disputa pela atração de investimentos públicos e privados que exige recursos humanos mais e mais qualificados, devido à utilização intensiva de conhecimento e informação. Assim sendo, os desafios e oportunidades do desenvolvimento dependem das peculiaridades políticas, espaciais, econômicas, culturais e socioambientais de cada lugar, que são balizadoras das vantagens comparativas e competitivas do município e região em que se insere.
Evidencie-se na atração de investimentos que parceria e consórcio entre municípios apresentam as melhores experiências de geração de oportunidades a partir da diferenciação, articulação, integração e complementação das atividades econômicas, construindo um desenvolvimento que se expressa na diminuição da demanda pelo hospital, no aumento da frequência à escola, na maior participação em atividades políticas e culturais, na ampliação do exercício dos direitos sociais e individuais, na distribuição territorial de população e atividades que proporciona fluxos de pessoas e veículos com conforto e segurança, na garantia da preservação do patrimônio ambiental e cultural.
Para tanto, o município precisa se apropriar da gestão e planejamento do desenvolvimento em que é fundamental qualificar as pessoas para melhor utilização dos recursos; avançar na criação de arranjos institucionais que facilitem a constituição de consórcios públicos intermunicipais, de agências de desenvolvimento, de parcerias diversas; fomentar a formação de fóruns, conselhos e demais institutos que garantam a participação, a transparência e o envolvimento da sociedade na luta pela melhoria das condições de vida material e imaterial.

Joaquim Cartaxo é arquiteto urbanista e secretário de formação política do PT/CE.

Fonte: jornal O POVO de 27 de janeiro de 2014.

FILOSOFIA DE BOTEQUIM


Mercearia e Bar Raimundo dos Queijos

Por Romeu Duarte
À mesa amiga, galhofeira e zoadenta do Raimundo do Queijo, pediram-me uma definição contemporânea de fuleiragem e molecagem, vocábulos tão queridos e praticados nesta Taba de Alencar. Aceitei o desafio da árdua tarefa, mesmo sabendo que gente da estirpe intelectual de um Quintino Cunha e de um Leonardo Mota já tinha navegado com seus barcos de grande calado por essas revoltas águas. “Quem sabe não atualizo as significações desses verbetes?”, pensei com meus botões, que me responderam em uníssono de suas casas: “Pretensiosinho, hein? Fuleiragem de moleque ou molecagem de fuleiro?”. Sorvendo a penúltima, pedi uma semana para dar conta do recado, alegando sua complexidade. “É muita fuleiragem”, disse o cego sanfoneiro.
Em casa, rodeado de dicionários físicos e virtuais, iniciei minha exploração nas selvas dos significados e étimos das duas palavras. Fuleiragem vem de fuleiro, “coisa ou pessoa de baixa qualidade, irresponsável, gaiata”, expressão derivada do calão lusitano “foleiro”, que quer dizer “mau gosto”. Fuleiragem seria então o feito de uma pessoa desqualificada ou então descomprometida, porém amigável. Por sua vez, molecagem é coisa de moleque, que tanto pode ser “menino que vive na rua” quanto “indivíduo sem compostura, indigno de crédito”. Assim, molecagem é arrumação de fedelho danado e também patifaria. Ou seja, dois termos nômades, que vão e vêm de um pólo negativo a outro positivo, curtindo horrores com a cara alheia, alencarinos até a medula.
Mas, para além das letras, há a vida, que a tudo transforma e empresta novos sentidos. Oscilando entre o pejorativo e o esperto, a fuleiragem pode se constituir numa tremenda sacanagem, em algo sem valor aparente ou numa brincadeira desobrigada de razão. Um pacote de chegadinha, a topic que vai lotada para Messejana, a quentinha de frango com baião comida no sol quente, uma piada da Rossicléa, os CDs piratas do Buraco da Jia são tão fuleiragens quanto a passarela metálica furreca defronte ao Centro de Eventos, a butique com nome estrangeiro impronunciável no Meireles e o vinho de marca misturado com o rango xing-ling. Fuleiragem é substantivo que é ruim e bom ao mesmo tempo, depende do prisma, tudo vale a pena se a alma não se aliena.
Já a molecagem, penso, está mais para o verbo, o ato de realizar a baixaria, odiosa para quem a sofre, agradável para quem dela sorri, fundamental para quem sobre ela reflete. Que o diga o Astro-rei, que em janeiro de 1942, por ter frustrado quem esperava uma copiosa chuva na Praça do Ferreira, foi vaiado com estrépito por um grupo de circunstantes, todos certamente moleques, alguns até de idade avançada. Acolher com sarcasmo as tragédias do cotidiano, nossa marca registrada, é costume que refinamos ao longo do tempo, para o bem e para o mal. Damos fé disso tanto na dança do jumento encenada pelo Falcão quanto na gaitada movida a uísque do bacana atolado até o pescoço no podre escândalo dos banheiros. Afinal, o Cine Holliúdi é aqui.
Haveria semelhanças, pontos de contato entre essas duas palavras? Que critérios usaremos para abrigar nos espaços que constroem, com suas sonoridades, coisas e ações recentes tais como a adutora quengada de Itapipoca, os dólares na cueca do assessor parlamentar, os viadutos e a “colcha de retalhos” do Parque do Cocó, os políticos inimigos figadais no passado e hoje de mãos dadas, trocando beijinhos? Atarantado, encontro-me mais confuso e menos sabido do que no começo. Em algum ponto, perdi-me na determinação do in e do out dessa história toda, ofício, aliás, safado e sem futuro. É, parece que não conseguirei cumprir o meu intento. Candidato a bater fofo com a turma boa da Travessa Crato, mais um moleque fuleiro na praça.

Fonte: jornal O POVO, edição de 27 de janeiro de 2014.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O HERÓI DE SI MESMO


Por Romeu Duarte
 
Depois de trinta e cinco anos de batente diário, repousava ali na sua frente, sobre a mesa de trabalho, a portaria que lhe concedia a aposentadoria do banco. O portador do documento, o auxiliar de serviços gerais, escarafunchava o nariz, absorto, ansiando pela rápida assinatura do seu agora ex-chefe no livro de protocolos para pegar o beco mais cedo. O jamegão do mais recente aposentado da Terra saiu firme, entretanto algo trêmulo pela emoção contida no ato. Sete lustros de lida finalizados com uma garatuja feita com uma Bic cor azul. As mesmas, aliás, naquele já distante 1979, que lhe abriram as portas para este mundo. De repente, a sala prorrompeu em aplausos, seus muitos colegas vieram lhe abraçar, o bolo escondido apareceu, entre risos e guaranás.

O que faria agora de sua vida, tão alinhada e dependente da rotina daquele estabelecimento? Entrara ali pouco mais que um garoto, após a aprovação em um rigoroso concurso. Ele, menino danado do interior, inteligente e bom de mandado, soube aproveitar e como a escassa oportunidade. Diligente e solidário, qualidades difíceis de encontrar em um só vivente, foi galgando um a um os patamares do ofício naquela autarquia federal até se instalar em tranquilo cargo, que ele apelidou de “posto de observação do sistema financeiro nacional”. Desta privilegiada atalaia, pôde acompanhar e refletir sobre a trajetória das finanças brasileiras, xadrez jogado em mil dimensões, que ele agora compreendia tão bem, justamente na hora do apagar das luzes.

“Parabéns, amigo”, disse-lhe um colega, a boca cheia de farelo do bolo, “serás agora o gerente da tua existência, com tempo de sobra para programá-la de acordo com a tua vontade”. Incendiário, o glutão sugeriu: “Sacode fora a gravata, toca fogo no paletó. Aproveita este teu momento com prazer e sabedoria. Inaugura a tua perene folga com uma generosa dose de um bom escocês doze anos”. Desarmado, o jeito era comemorar com goladas do inocente refrigerante. Súbita paranoia: “Estarão eles alegres com o meu feito ou por se verem livres de minha pessoa?”. A dúvida atroz rapidamente dissipou-se com o discurso escrito num rolo de papel higiênico e lido com graça e em tom de agradecimento pelo impagável diretor, seu antigo e fiel estagiário.

Na rua, logo depois dos numerosos e demorados abraços de adeus, agora envolto pelo ar condicionado do táxi novo em folha, nosso caro ex-funcionário, agora já entronizado no confortável universo dos reformados, olhava o prédio em que passara labutando essas mais de três décadas e repetia o Shakespeare que aprendera no colégio: “Toda despedida é dor...tão doce, todavia, que eu te diria boa noite até que amanhecesse o dia”. A geografia da cidade outra lhe seria então, oferecendo-lhe leituras diferenciadas de ruas e espaços que antes só faziam sentido por lhe conduzirem ao local da faina cotidiana. “Há toda uma Fortaleza por descobrir; esta será minha primeira aventura, ave livre da gaiola dos horários”, ruminava, neo-desbravador urbano.

Entretanto, já havia escolhido sua Pasárgada, seu país de delícias: o lar. “Lá serei amigo de mim mesmo, terei a vida que eu quiser, do jeito que escolherei”, certificava-se, indicando ao taxista o caminho do agradável prédio de apartamentos no Bairro de Fátima. Em lá chegando, contou a boa nova à mulher, a carta de alforria dançando entre as mãos nervosas. Ela, desconfiada e matreira como toda filha de Eva, decretou: “O quê?! Ficar em casa sem fazer nada?! De jeito nenhum. Você é novo ainda, vá tratando de arrumar alguma coisa para cuidar, quem fica parado é poste, avie!”. Foi para o quarto despir-se. “Como pode ser tão insensível?”. Surpresa: clandestino, no bolso do terno, o bilhetinho do diretor gozado: “Debaixo da porta do aposentado cresce capim".
 
Fonte: jornal O POVO, 20 de janeiro de 2014.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

REVESES E CONTRARIEDADES PARA A DIREITA



  


Por Flávio Aguiar


O catastrofismo é moda, tanto à direita quanto à extrema esquerda, no Brasil. À direita, porque ela não tem programa. Ou melhor tem, mas não pode confessá-lo, pelo menos na arena política em sentido estrito. Pode através da mídia e/ou de arautos que não seja candidatos: desarticular a fórmula de crescimento do salário mínimo, destroçar o Bolsa-Família sob o argumento de que “vamos fazer mais e melhor”, acabar com esta mania de que pobre das periferias do Brasil tem direto a médico próximo, e por aí vai. Outra ponta deste catastrofismo é apontar que o Brasil já está na catástrofe. Os avanços sociais não existiram, o país está quebrado ou quebrando, o tomate vai nos afogar inflacionariamente, a Petrobrás vai se afogar no Oceano Atlântico, o PT é o Partido mais corrupto da história mundial, a Copa já é um fracasso, a Olimpíada outro, etc.

À extrema-esquerda, a orquestra  toca pelo mesmo diapasão, embora com alguns solos diferentes. Nada mudou no país, houve migalhas para os pobres e fatias mais gordas ainda para os ricos, Dilma, Lula e FHC são farinha do mesmo saco, etc. Acrescente-se aí uma desesperança generalizada no mundo: tudo está horrivelmente controlado pela direita internacional, etc. Às vezes há variações jazzísticas: o mundo está à beira de uma revolução mundial, como demonstraram as manifestações de junho passado, as maiores que o país já teve (sic), a dita revolução só não avança porque no meio do caminho tinha um Lula, tem uma Dilma no meio do caminho, estes espectros do capitalismo internacional.

Muita gente de outras colorações políticas cede aos catastrofismos. Mas se olharmos com mais atenção para  o cenário mundial, veremos que nem tudo foram flores para as direitas mundiais em 2013, que elas padeceram de reveses e contrariedades de monta.

As direitas: as correntes políticas que, contra todas as evidências, continuam pregando a liberação e supremacia dos mercados como panaceia universal, favorecendo o rentismo sobre o investimento produtivo, defendendo o rebaixamento salarial e do poder aquisitivo de populações inteiras como catapulta para a “competitividade”, cortando programas sociais, em alguns casos investindo contra imigrantes, “países do sul”, estas coisas. De quebra, continuando a pregar em certos países, mesmo veladamente, as soluções militares para os conflitos internacionais e até internos.

De longe, a maior contrariedade para esta direita foi o renascimento da Rússia como potência diplomática. Não morro de amores pelo czarismo renovado de Vladimir Putin, mas decididamente o governo russo foi o responsável por uma reviravolta nas expectativas no Oriente Médio, no sentido de que soluções diplomáticas são vislumbradas para os dois maiores conflitos que a região vive no plano imediato: a guerra civil na Síria e o programa nuclear iraniano. A iniciativa russa, que, por força das circunstâncias, ganhou o relativo apoio dos países do Ocidente, compôs um quadro de neutralização da crescente influência saudita na região  e sua metástase chamada “Al Qaïda e suas franquias”.

Outra contrariedade grave para as direitas foi que não conseguiram deter, nos Estados Unidos, a instauração do novo programa de saude pública do governo federal, ainda que este tenha se enrolado também nas próprias pernas.

Já que falamos em Estados Unidos, a eleição do democrata  Bill Blasio para a prefeitura de Nova Iorque foi não só uma contrariedade mas um revés para as direitas (ver artigo do governador Tarso Genro nesta página). Afirmando que o principal problema da cidade é a enorme desigualdade social que a caracteriza, Blasio já vem angariando adjetivos de “populista”, “demagogo”, olhado como uma espécie de Hugo Chavez redivivo e ancorado no rio Hudson.

Falando em Hugo Chavez, a vitória de Nicolás Maduro nas eleições municipais da Venezuela foi um grave revés para as direitas, também a eleição de Michele Bachelet no Chile e, antes, a reeleição de Rafael Correa no Equador. O processo de negociação entre o governo colombiano e as FARC, realizando-se em Havana, é juma contrariedade para as direitas, bem como o simples aperto de mão entre os presidentes Obama e Raul Castro no funeral de Mandela.

Na Europa, em que pese a continuidade dos “planos austeros” que estão ressecando as economias do continente e pulverizando o futuro de milhões de pessoas em vias de empobrecimento, em que pese o assanhamento da extrema-direita em vários países, como a França, a Holanda, e o mostrar de garras anti-imigrantes e pobres por parte da mais-direita alemã, a principal contrariedade para as direitas veio justamente de dentro de seu bastião principal: foi a adoção, pelo governo de Berlim, de um salário mínimo nacional. Além de uma contrariedade no plano político institucional, esta adoção foi um grave revés teórico e doutrinário para os sacerdotes fundamentalistas dos mercados desregulados e desreguladores de tudo o mais.

Para encerrar este curto sobrevôo, citarei a eleição do Cardeal Bergoglio, hoje Papa Francisco I, no Vaticano. Bergoglio tem um passado controverso, mas como dizia o Padre Antonio Vieira, e história mais importante é a do futuro. Francisco I não está levando a cúpula da Igreja Católica para a esquerda; mas a está puxando para o centro, depois do reinado, durante 35 anos, da dupla João Paulo II, o globe-trotter do anti-comunismo (como poderão santificar um prelado que se recusou a receber as Mães da Praça de Maio e os parentes dos desaparecidos chilenos?), e Bento XVI, o arqui-conservador doutrinário. Por mínimo que seja, este movimento é uma grave contrariedade para as direitas, envolvendo desde a retomada de um discurso que lembra a pobreza do mundo como tema central da Igreja, até a pregação da humildade – pelo menos – diante de questões como os casamentos e direitos de pessoas do mesmo sexo, entre outros. Além disto, o Papa está mexendo na estrutura da Cúria Romana e do Banco do Vaticano. Ele que se cuide.

Mais uma coisa, para desespero de nossos arautos da direita na mídia. Quando o presidente Jo’se Pepe Mujica (que deveria ganhar o Premio Nobel da Paz) anunciou sua bem sucedida campanha para liberar o ciclo completo da maconha, da plantação ao consumo, sob controle do Estado, os arautos mais açodados da direitona apressaram-se a desqualificá-lo, como sendo um homem ridículo e mal enjambrado, das roupas  às ideias e ideais. 2014 reservou um duro golpe para tais canastrões da velha mídia: o estado do Colorado seguiu no mesmo caminho, nos Estados Unidos, e até adiantou-se, promulgando a lei de regulamentação do tema antes que o Uruguai o fizesse. E há mais estados norte-americanos anunciando que vão seguir ma mesma esteira.

Quero ver os falsos catões da velha mídia esceverem que estado norte-americano é mal enjambrado.

Como diz o Leblon, a ver.



Fonte: http://www.cartamaior.com.br/?/Coluna/Reveses-e-contrariedades-para-a-direita/30009

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

OS SHOPPING-CENTERS, UTOPIA NEOLIBERAL



 


Por Emir Sader



Na sua fase neoliberal, o capitalismo implementa, como nunca na sua história, a mercantilização de todos os espaços sociais. Se disseminam os chamados não-lugares – como os aeroportos, os hotéis, os shopping-centers -, homogeneizados pela globalização, sem espaço nem tempo, similares por todo o mundo.

Os shopping-centers representam a centralidade da esfera mercantil em detrimento da esfera pública, nos espaços urbanos. Para a esfera mercantil, o fundamental é o consumidor e o mercado. Para a esfera pública, é o cidadão e os direitos.

Os shoppings-centers representam a ofensiva avassaladora contra os espaços públicos nas cidades, são o contraponto das praças públicas. São cápsulas espaciais condicionadas pela estética do mercado, segundo a definição de Beatriz Sarlo. Um processo que igualiza a todos os shopping-centers, de São Paulo a Dubai, de Los Angeles a Buenos Aires, da Cidade do México à Cidade do Cabo.
   
A instalação de um shopping redesenha o território urbano, redefinindo, do ponto de vista de classe, as zonas onde se concentra cada classe social. O centro – onde todas as classes circulavam – se deteriora, enquanto cada classe social se atrincheira nos seus bairros, com claras distinções de classe

Os shopping, como exemplos de não-lugares, são espaços que buscam fazer com que desapareçam o tempo e o espaço – sem relógio e sem janelas - , em que desaparecem a cidade em que estão inseridos, o pais, o povo. A conexão é com as marcas globalizadas que povoam os shopping-centers de outros lugares do mundo. Desaparecem os produtos locais – gastronomia, artesanato -, substituídos pelas marcas globais, as mesmas em todos os shoppings, liquidando as diferenças, as particularidades de cada pais e de cada povo, achatando as formas de consumo e de vida.

O shopping pretende substituir à própria cidade. Termina levando ao fechamento dos cinemas tradicionais das praças publicas, substituídos pelas dezenas de salas dos shoppings, que promovem a programação homogênea das grandes cadeias de distribuição.

O shopping não pode controlar a entrada das pessoas, mas como que por milagre, só estão aí os que tem poder aquisitivo, os mendigos, os pobres, estão ausentes. Há um filtro, muitas vezes invisível, constrangedor, outras vezes explicito, para que só entrem os  consumidores.

Nos anos 1980 foi organizado um passeio de moradores de favelas no Rio de Janeiro a um shopping da zona sul da cidade. Saíram vários ônibus, com gente que nunca tinham entrado num shopping.

As senhoras, com seus filhos, sentavam-se nas lojas de sapatos e se punham a experimentar vários modelos, vários tamanhos, para ela e para todos os seus filhos, diante do olhar constrangido dos empregados, que sabiam que eles não comprariam aqueles sapatos, até pelos seus preços. Mas não podiam impedir que eles entrassem e experimentassem as mercadoras oferecidas.

Criou-se um pânico no shopping, os gerentes não sabiam o que fazer, não podiam impedir o ingresso daquelas pessoas, porque o shopping teoricamente é um espaço público, aberto, nem podiam botá-los pra fora. Tocava-se ali no nervo central do shopping – espaço público privatizado, porque mercantilizado.

O shopping-center é a utopia do neoliberalismo, um espaço em que tudo é mercadoria, tudo tem preço, tudo se vende, tudo se compra. Interessa aos shoppings os consumidores, desaparecem, junto com os espaços púbicos, os cidadãos. Os outros só interessam enquanto produtores de mercadorias. Ao shopping interessam os consumidores.

Em um shopping chique da zona sul do Rio, uma vez, uns seguranças viram um menino negro. Correram abordá-lo, sem dúvida com a disposição de botá-lo pra fora daquele templo do consumo. Quando a babá disse que ela era filho adotivo do Caetano Veloso, diante do constrangimento geral dos seguranças.

A insegurança nas cidades, o mau tempo, a contaminação, o trânsito,  encontra refúgio nessa cápsula, que nos abriga de todos os riscos. Quase já se pode nascer e morrer num shopping – só faltam a maternidade e o cemitério, porque hotéis já existem. A utopia – sem pobres, sem ruídos, sem calçadas esburacadas, sem meninos pobres vendendo chicletes nas esquinas ou pedindo esmolas, sem trombadinhas, sem flanelinhas.  O mundo do consumo, reservado para poucos, é o reino absoluto do mercado, que determina tudo, não apenas quem tem direito de acesso, mas a distribuição das lojas, os espaços obrigatórios para que se possa circular, tudo comandado pelo consumo.

Como toda utopia capitalista, reservada para poucos, porque basta o consumo de 20% da população para dar vazão às mercadorias e os serviços disponíveis e alimentar a reprodução do capital.

Mas para que essas cápsulas ideais existam, é necessário a super exploração dos trabalhadores – crianças, adultos, idosos – nas oficinas clandestinas com trabalhadores paraguaios e bolivianos em São Paulo e em Buenos Aires, em Bangladesh e na Indonésia, que produzem para que as grandes marcas exibam as roupas e os tênis luxuosos em suas esplendorosas lojas dos shoppings.

O choque entre os mundo dos shoppings e o dos espaços públicos remanescentes – praças, espaços culturais, os CEUS de São Paulo, os clubes esportivos públicos – é a luta entre a esfera mercantil e a esfera pública, entre  o mundo dos consumidores e o mundo dos cidadãos, entre o reino do mercado e a esfera da cidadania, entre o poder de consumo e o direito de todos.

É um enfrentamento que está no centro do enfrentamento entre o neoliberalismo e o posneoliberalismo, entre a forma extrema que assume o capitalismo contemporâneo e a formas de sociabilidade solidária das sociedades que assumem a responsabilidade de construir um mundo menos desigual, mais humano.



Fonte: http://www.cartamaior.com.br/?/Blog/Blog-do-Emir/Os-shopping-centers-utopia-neoliberal/2/29996

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

ANO NOVO, VIDA NOVA?



Por Romeu Duarte

Todo final e começo de ano é a mesma coisa. Se o desejo não parte de dentro do sujeito, de alguma busca ou carência que se anseia solucionar, são imposições alheias ao nosso talante que nos determinam outra forma de viver. Diminuir os defeitos e ampliar as virtudes do cidadão para melhorar o seu passadio e o da comunidade em que vive, eis o desafio ecológico posto sobre a mesa do café da manhã familiar neste início de janeiro. Terá ele condições ou coragem de alterar uma rotina de tanto tempo, tão entranhada em sua maneira de ir tocando as coisas? Cumprirá o combinado a ferro e fogo ou encontrará mil e uma chicanas para contornar o prometido? Suportará as cobranças de tal panóptico, subitamente focado no encalço dos seus passos?
Para começar, beber e comer menos, trocar os modos do Baco pantagruélico pelos do faquir espartano. Banir da vontade todas as comidinhas emocionantes que tanto se insinuam ao seu apetite e substituí-las por repastos mais saudáveis e orgânicos. Numa palavra: sai de campo, esbaforida, a panelada do Fabiano e entra, cheio de gás, o rodízio de chuchu. Na agenda líquida, limitar os destilados e fermentados às quantidades mínimas em proveito da boa e refrescante água, nas versões mineral e de coco. Terminantemente proibida a já longeva prática do Bardhal (ingestão farta de cerveja, com cachaça para rebater). Claro, o esforço de reeducação alimentar deverá ser complementado por suarentas caminhadas em calção, camiseta regata e tênis pelos calçadões.
No quesito cultural, a ordem é expandir limites e abolir preconceitos. Deixar de lado as velhas preferências e experimentar universos nunca dantes penetrados. Até breve Nelson, Gullar, Melville, filmes de gangster e faroeste, be-bop, bolero, bossa nova, blues inglês, Caetano, Caravaggio, Bacon, Brecht, Corbu, Reidy e Brando. Boas vindas Galera, Carpinejar, Agualusa, filmes peruanos e iranianos, nu-jazz, arrocha, MPB gringa, zouk-carimbó, Criolo, pichadores, arte pública e coletiva, Müller, Hadid, Rosenbaum e Franco. Não sabe se agüentará esse inusitado cardápio. Aprendeu com Borges que selecionar o acervo de uma biblioteca é uma excelente forma de exercer a crítica literária. Nas estantes, seus antigos ídolos, mãos já acenando adeuses.
A ambiciosa ementa, para ele agora quase um calvário, também se estende à descoberta de novos e surpreendentes lugares. Afinal, há muito mais destinos que o sambado roteiro casa-trabalho-escritório-boteco pode oferecer. Fazer compras ao cair da tarde em feéricos supermercados. Bater perna no shopping elegante, casando a comédia romântica insossa do cinema com o lanche frugal na tapiocaria. Curtir pic-nics nos parques de Fortaleza aos sábados e domingos à tarde. Exercitar-se até a exaustão nos equipamentos da academia de ginástica. Virtualmente, aventurar-se nas muitas vias do cyber-world. Por fim, ficar mais em casa, no sacrossanto recesso do lar, lugar calmo e sossegado. Estaria ele preparado para dar um tempo nos benjamins da Travessa Crato?
Com essa alentada lista de itens politicamente corretos pregada na testa, ele se levanta para tomar banho e ir trabalhar. Sob a cálida torrente da piscina vertical (obrigado, Aírton Monte), reflete sobre a onipresente expressão “qualidade de vida”. Será que a conquista deste tão almejado patamar do existir implicaria inexoravelmente na abdicação de gostos e vícios longamente adquiridos e desfrutados? Programa de índio seria agora obrigação implacável? Haveria vida no planeta Tédio? Arruma-se com vagar, pensando no duro repto posto à sua frente. Evitá-lo-á mais uma vez, driblando-o às gargalhadas? No ônibus (prometeu deixar o carro na garagem e andar mais), o amigo, recém-convertido ao credo, lhe desejou sorrindo ano novo e vida nova.

Fonte: jornal O POVO, 13 de janeiro de 2014.